domingo, 5 de outubro de 2008

Com cérebro, por favor



05.10.08 - por Carol Medeiros

Não tenho mais saco.

Quando a noitada começa, até chego a acreditar que pode ser legal. Me empolgo, observo as pessoas, vou ao bar. Gosto da música. Acredito que será possível ter uma noite como há tempos não tenho, quase me convenço de que vou voltar pra casa dizendo que valeu a pena ter saído em vez de ter assistido a um DVD.

Ledo engano. Não mudo de opinião a respeito das pessoas, que continuam bonitas, ou da música, que supera as expectativas. Acontece que nem o melhor dos climas é suficiente quando quem não está no clima é você. Esse desânimo não se deve só ao mau tempo, à lei seca ou à porcaria que está a noite do Rio. É um acúmulo de sensações e percepções potencializadas por coisas que venho constatando há algum tempo.

Analiso. Os caras gatinhos são só isso mesmo, carinhas gatinhos. Não que eu saia com pretensão de me apaixonar. Sempre critiquei amigas que deixavam de ficar com alguém achando que “homem é tudo igual”, que “não valia a pena”. Talvez não valessem para namorar, mas que mal havia em dar uns beijos? Ainda não enlouqueci a ponto de achar que beijar faz mal, claro. Mas definitivamente, ficar com alguém na noitada tem acrescentado menos do que assistir à Zorra Total. É sério. E bizarro.

Conheci algumas pessoas bacanas em boates, sem terem sido apresentadas por amigos em comum. Foi assim mesmo, na cara, na coragem e na sorte. Nessa época eu achava que mesmo na noitada era possível diferenciar e ser diferenciada. Acreditava que pessoas que estavam ali para se divertir, mas que não eram como a maioria sem-nada-na-cabeça, se destacariam naturalmente. Isso mesmo num lugar com música alta, bebida no volume máximo e pessoas dispostas a tudo numa noite e nada no dia seguinte. Achava que funcionava assim, afinal, no mínimo tinha conhecido algumas pessoas ótimas dessa maneira.

Não sei se antes as coisas funcionavam assim mesmo e agora é que deixaram de ser. Talvez nunca tenham sido desse jeito e eu é que tive sorte de conhecer caras legais em ambientes duvidosos. “Era pra ser” ou naquela época ainda havia alguma chance de alguém na noitada valer a pena?

Hoje em dia, considero essas chances quase nulas. Nem é tão raro alguém bacana freqüentar noitada, o problema está na inversão de valores e no julgamento que todos, inclusive eu, fazem de todos, inclusive de mim.

Vejamos. Um carinha com algum conteúdo vê uma mulher bonita na noitada. Imediatamente a coloca no rol das doidas que enchem a cara e vão lhe dar uns beijos sem o menor interesse no que ele tem a dizer. Ele tem certeza de que o único interesse ali é físico, talvez haja alguma atração também pela garrafa que ele banca em seu camarote. Aliás, na noite a garrafa tem essa função, atrair mulheres que têm esse tipo de pensamento. Mas quando volta pra casa sozinho, ou carrega alguma maluca mas, no fim das contas, continua sozinho, o carinha também reclama. “A mulherada tá foda”, todos eles dizem, se esquecendo do tipo de mulher que eles parecem buscar quando usam garrafas como ímã.

Seja porque o som alto minimiza chances de conversa, seja porque as pessoas não têm o que dizer, na noitada a dedução generalizada é que todos estão no clima do cala-a-boca-e-beija-logo. Não estão errados, começo a acreditar que a maioria prefere isso mesmo.

Então, eis que sou abordada por alguém que, embora talvez utilize seu cérebro em alguns momentos da vida, não está propenso a fazer uso dessa parte de seu corpo naquele momento. Como não ando lá muito receptiva pra esse tipo de coisa, declino o “convite” educadamente. Alguns aceitam com passividade e não têm o menor pudor de abordar a loira mais próxima. Outros não entendem que, para algumas mulheres, “não” ainda é “não”. Esses seres insistentes, bêbados ou com pouco amor-próprio, ou com tudo isso junto, me obrigam a ser menos educada do que eu gostaria.

É como se eu não tivesse direito de não estar a fim, afinal, estou na noite! Algo como “derrubou na área, é pênalti”, “saiu na chuva, é pra se molhar”. Eu, hein? Se nem quando entro numa loja de roupas e experimento dezenas de vestidos me torno obrigada a levar algum deles, vê lá se tenho que ficar com alguém só porque estou na noitada? Será que os homens não ouviram falar naquela comunidade do orkut que diz que “só vim pra dançar”?

A verdade é que mesmo que o cara seja exceção e mostre-se bacana e com algum conteúdo, a descrença é total, de ambas as partes. Nem dou bola, na certeza de que vou perder meu tempo. Assim, o carinha que cogitava conhecer alguém legal e bater papo em vez de chegar agarrando, começa a acreditar que é melhor mesmo beijar e pronto, como fazem seus amigos. Perde-se menos tempo, poupa-se energia e, no fim das contas, beija-se muito. Mas o vazio permanece.

Essas noites me cansam. Não são raras as vezes em que estou quieta em casa e insisto em aceitar o convite das amigas pra ir pra noitada. Vou, na tentativa de me convencer de que é possível me divertir assim ainda, mas no fundo sempre sei que a possibilidade de me arrepender é enorme. Até me divirto, porque minhas amigas costumam ser excelentes companhias. Mas sempre volto com sensação de que não valeu o esforço, e que se eu empenhasse a energia que gastei na noitada em bons livros, ganharia muito mais.

Acho que tudo tem seu momento, e minha noção de boa programação ultimamente não tem tido nada a ver com noites de sono literalmente perdidas. O som é alto lá fora, mas não o suficiente para abafar o barulho que ecoa aqui dentro. Um brinde às coisas boas da vida, principalmente às que vêm acompanhadas por cérebro.

19 comentários:

Marceli Serrano disse...

Perfeito esse texto!
Tenha certeza que esse sentimento é compartilhado!hehe...
BJu, Marceli

gfmelsert disse...

Eu já percebi isso faz um bom tempinho Cârolzita! Por isso que agente já tem o biotipo formado!
hahaha
Beijosss!

samya disse...

Adorei!!

Bjinhus!
Samya

Remo Saraiva disse...

Texto perfeito! Bravo!!

Bjs,
Rômulo/Remo.

Gabrielle Matos disse...

Carol,
Incrível, parece q vc literalmente descreveu oq venho sentindo na noite!! rsrs
Bj bj, Gabrielle Matos!

Anônimo disse...

Querida Carol,
Adorei!!!!!!acho que são poucos os jovens que tem noção. No tempo da minha filha já era assim.....Como minha neta está chegando, já vou guardar o texto para ela não perder muito tempo na noite.
beijinos

Luiz de Melo disse...

hahaah
Tá lendo mentes agora?!
O jeito é se divertir com os amigos...
Bjão, Carolzinha!

Bruno Amaral de Oliveira Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruno Amaral de Oliveira Rodrigues disse...

Poderia fazer um comentário gigante acerca de seu texto. Temos dezenas de pensamentos em comum, você me lê, eu te leio. Sabemos disso.

No sábado, a Karina não sabia oq fazer. Eu falei que estaria em Ipanema e que se ela não fosse fazer nada PUXADO(entende-se por PUXADO todo o conceito de noite do Rio e boate que tu acabaste de descrever em seu texto), que ela me ligasse e tomaríamos uma breja.

Sem mas.

Obs1: Mês passado baixei o primeiro album da carreira da Amy, 'Frank'. FODA!

Felipe disse...

Pois é Carol, se o objetivo da night não for apenas 'dar uns beijos e valeu', realmente é melhor ficar em casa.. pra arrumar alguém decente é muito difícil..

Cabeça vazia é o que mais tem por aí.. ainda mais na night..

Apesar de eu nunca comentar, eu sempre leio isso aqui..

Ah, diga-se de passagem, quanto tempo hein Carol? Tudo certo com você?

Beijos!

Rodrigo Giglio disse...

Oi, morena.
Achei mt foda seu texto, vc se supera a cada post.
Mais foda ainda é um homem como eu concordar em gênero, número e grau com cada nuance do teu desabafo.
Mt bom, continue essa observadora da vida! Vc é demais!

bjos
giglio

Nathalia Martins Duarte disse...

Perfeito!Bravo!!
Cerebro realmente é uma coisa que as pessoas deveriam usar as vezes...
Bjao

Anderson disse...

excelente, parabéns pelo texto.
esse texto mostra como esse sentimento é compartilhado.
bjsss Deus te abençoe
deois vc ver no meu blog texto, eu vou botar mais. abraçosssss

Lucia disse...

Parabéns!
Seu texto está perfeito!!!
Apesar de vc ser tão jovem, compartilhamos do mesmo sentimento.
Hj em dia é muito difícil encontrar
alguém centrado, com noção exata das
coisas.
Um abração

Line disse...

É, acho que chega um momento que todo mundo passa por isso.
Aonde estão os caras legais?
Adorei seu texto =*

Marina disse...

Nossa, eu não cohecia o seu blog, mas precisei comentar porque achei o seu texto perfeito e também sou carioca, sei exatamente o que acontece nas noites do Rio...E as vezes a gente realmente tem a sensação, de que seira melhor passar o sábado a notie lendo alguns livros ou vendo DVD, mas parece que há uma espécie de cobrança para que a gente saia e "se divirta"...Mas acho que até que dá pra conhecer pessoas legais, sim...Mas é raro.
Beijão

Ana Cecília Pereira disse...

Penso exatamento o mesmo. Sair me cansa, ainda mais quando você sabe (mesmo sem saber) que é sempre a mesma coisa. Eu sumi da vida noturna, depois de cinco meses decidi sair com uma 15 pessoas que há tempos não saiam também. Aí sim vale a pena, todo mundo tá ali junto, como se não existisse o resto da balada, só a música (realmente boa). Aí eu não me importei de chegar destruída em casa, às 5 da manhã, no esquema "só vim pra dançar".

Gostei daqui!
Um beijo! :*

Amiga Terapia disse...

ADOREI!! Bom saber que quando vou a balada outras meninas como eu e quem sabe "algum" cara tb está pensando lá, de canto, o mesmo que eu...

Eu sempre pensei isso pq hoje em dias saio mesmo pra dançar, mas tb sei que enquanto estamos à procura de alguém, o certo mesmo é quando alguém que estiver a nossa procura, nos achar! seja onde for...

beijos!!!! voltarei aqui mais vezes...

SAM disse...

Tim tim! Um brinde à Carol! Você está certíssima, Carol! Vale as companhias, mas um bom livro é um excelente amigo. Não sentir-se obrigada a acompanhar o rebanho pra não ser diferente, ser você mesmo é o que vale!

Beijinhos