domingo, 5 de setembro de 2010

A grama do vizinho

Volta e meia me pego pensando nos motivos que nos levam a somente dar valor a algo quando o perdemos. Pode não ser exatamente um modo de pensar, mas é um modo de agir do ser humano que nos ronda nas mais diversas situações, como um mantra que não repetimos verbalmente, mas o qual cumprimos à risca: “só dá valor quando perde”.

Serve pro cara que era grosso com a namorada, e quando percebeu que ia perdê-la, se disse disposto a mudar (já era tarde). Funciona pra quem nunca tinha tempo pra se encontrar com os amigos, e uma vez morando longe deles, daria tudo para ter com quem tomar uma taça de vinho. Pro chefe que nunca elogia um funcionário e só nota o quanto ele era competente quando recebe sua carta de demissão. Se aplica aos filhos que só percebem que nunca disseram que amavam seus pais quando estes já partiram pra outro plano. Olhando ao redor, acho que isso é quase inerente ao ser humano. E me pergunto: por que a gente é assim?

“Difícil é amar o que se tem”. Ouvi esta frase em algum lugar, e agora ela não me sai da cabeça. Trocando em miúdos, a grama do vizinho é sempre mais verde. Só damos valor quando perdemos. E não só nos relacionamentos; sofremos desse mal praticamente em nosso dia a dia.

Quem mora longe da praia, enumera tudo o que faria se morasse à beira-mar, e que só não realiza porque mora no subúrbio. Um dia, quando se muda, se esquece das promessas que fez a si mesmo e mantém sua velha rotina, mesmo num novo lugar. O problema era o bairro ou a pessoa?

A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, tem suas desvantagens, como qualquer outra. Mas tem um milhão de coisas bacanas também. Quem não mora aqui não consegue entender como muitos cariocas passam a vida toda sem ir ao Cristo Redentor, ao Pão de Açúcar, ao Jardim Botânico. Lugares que muitos de nós só passam a conhecer quando recebem hóspedes de fora.

Da mesma forma, às vezes precisamos que alguém elogie nosso amado para percebermos o quanto ele é, de fato, bonito. Por que será? Por que precisamos da validação dos outros para dar, enfim, valor ao que temos?

Obviamente, não tenho essa resposta. Mas vale lembrar que a vida é feita de escolhas, como bem diz outra frase feita. E que cabe a nós mesmos escolher a alternativa de valorizar o que temos, enquanto temos. Porque um dia a gente pode mudar de cidade, e só então vamos sentir falta daquele cheiro que só o lugar onde a gente viveu a vida toda tem. Quando não virmos mais um velho amigo, vamos perceber como era bom ouvir suas piadas. Se a vida seguir seu curso natural, nossos pais se vão antes de nós, e aí sentiremos falta do seu colo, aquele que não aproveitamos enquanto podíamos.

Um dia as cortinas se fecham, a chuva cai, a porta bate, o avião decola. Quem a gente ama, se vai. A grama do vizinho só é mais verde quando teimamos em enxergar a nossa vida em preto e branco.

6 comentários:

Anônimo disse...

Nossa, Carol. Adorei. Voce tem toda razao.
Beijos Dani Quintella

Priscilla disse...

Parabéns mais uma vez!
Talentosíssima!!!!!!!!

Fátima Alves disse...

Amei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1

É isso mesmo! Geralmente, só valorizamos quando perdemos. Felizes os que tem consciência de quando são amados e correspondidos, que procuram e encontram, que caminham numa mesma direção.

As pessoas ainda não se deram conta que só no amor, com amor e por amor é que nos completamos como seres humanos e que quando o "cosmos" conspira a nosso favor, trazendo as pessoas certas para nos ajudar na caminhada já somos ricos e abençoados.

continue escrevendo coisas lindas como você!

um grande beijo.

Claudinha disse...

Carol, mas uma vez "tocando na ferida", "coisinha" estranha o ser humano, né? Parabéns pelas sábias palavras!!! bjs

Ivana disse...

Texto perfeito, lindo e sincero! Você tem muito talento!
Toda vez que leio um texto seu, muda algo no meu jeito de ver a vida e isso me faz muito bem!
Adoro o "Vinho com Batata"!
Sucesso!

felipepires disse...

Grande Carol... quanto tempo!

Perfeito o texto.. é foda, mas a gente acaba valorizando as coisas quando perdemos..

Beijão!