quinta-feira, 2 de julho de 2009

Procure no dicionário

Maria Carolina Medeiros

Em tempos de reforma ortográfica, andei pensando: tinham é que inventar um dicionário contendo novas definições para palavras que são velhas conhecidas. Relacionamento, namoro, união, lealdade... está tudo tão confuso que as pessoas perdem o referencial e começam a chamar urubu de meu louro.

Temos mania de dizer que antigamente a vida sentimental era difícil: o homem que se interessava por uma moça tinha que pedir permissão aos pais dela para namorarem, rolava no máximo uns beijinhos (isso é o que dizem, tenho minhas dúvidas) e, se a coisa firmasse, casavam-se. Gente, ISSO é complicado onde?

Não estou dizendo que era melhor do que agora, acho super válido as pessoas poderem se escolher mutuamente, se gostarem ou não, ficarem juntas ou não, terem vários namorados antes de se casarem com um. Me considero sortuda por não ter nascido nessa época nem tão distante assim e ter a liberdade de escolha que antes era destinada majoritariamente aos homens. Acho legal que o objetivo de vida das mulheres não seja mais puramente se casar, é fundamental que todos tenham direito ao prazer. Mas dizer que as coisas se tornaram mais SIMPLES, ah, isso é mentira deslavada!

Todo mundo tem tanta liberdade de escolha que comumente as coisas se confundem: um “casal” sai junto todos os fins de semana, um freqüenta a casa do outro, mas num dado momento um dos dois diz que não quer compromisso sério. Ah, então não era sério até aquele momento? O que faria “aquilo” ficar sério? Alguém explica isso pra parte do casal que não estava entendendo dessa forma?

E olha que isso não acontece apenas com as mulheres, os homens também frequentemente “namoram” sozinhos. É comum a gente achar que quem passa por isso é porque não se percebeu os sinais do outro e não se mancou. Pode até ser, mas os “sinais” estão cada vez mais difíceis de serem decodificados.

Antes, aproximação significava interesse. Um beijo, então, era algo íntimo, destinado a alguém por quem você se interessasse de verdade. Hoje, beijo é resultado de atração, ou bebida demais, ou ainda de um “antes você do que sair liso da noitada”. Quando o cara ligava, era porque estava mesmo a fim. Agora pode ser só porque não tinha nada melhor pra fazer e te tirou da geladeira (crédito pro “Manual do Cafajeste”, que está nos favoritos daqui do blog). Sair juntos por fins de semanas a fio era igual a “quero estar só com você”, mas hoje pode querer dizer um monte de coisas, incluindo “gosto de você, mas quero sair com outras pessoas e espero que você ache isso normal, afinal, nunca falei a palavra namoro”. E ainda tem pessoas com coragem de dizer que as coisas ficaram mais simples! Eu, hein?!

A confusão que a falta de definição gera não pára por aí. Já vi casos de meninas que ficaram uma vez com o cara e “decidiram” que ele era sua propriedade: dali em diante, nenhuma amiga, nem anos depois, poderia cogitar ficar com o dito cujo. Como assim? Não teve nem namoro (nem definido, nem subentendido, vamos combinar), que cabimento tem esse comportamento de proibição?

Hoje, um beijo significa isso mesmo: apenas um beijo. Tem que vir acompanhado de muitas outras sensações – e pode acontecer, acreditem – para virar algo além de one night stand. Mas se não foi o que rolou, não dá pra encanar. Se todo mundo que beija alguém for excluído da lista de pretendentes, não sobra ninguém nesse Rio de meus Deus. É bagunça, é o que for, mas é a vida de hoje e temos que nos adequar. Mas que um dicionariozinho ajudava, ah, ajudava!

7 comentários:

Nathália disse...

Se precisarem de ajuda para escrever o dicionario estou a disposiçao!! Como sempre o texto SENSACIONAL!!!
bjo

RODRIGO disse...

3x "Foda" ao quadrado. Essa a formula da nota numerica que vc merece pelo texto. Muito maneiro, me identifiquei (e quem nao?) e assino embaixo.

Alias, ontem no Jo foi o autor do manual do Cafajeste. O cara eh uma figura bizarra e divertida E namora um mulherao, vai entender... quem ama o feio, bonito lhe parece!

Parabens, Carol, mande mais!

Bjos,

GIGLIO

Fiorio disse...

Parece-me que existe uma grande complicação na dita facilidade nos relacionamentos atuais. A cada dia existe uma menor cumplicidade entre pessoas que manifestaram o interesse de estarem juntas. Um namora o outro, mas não se entrega, pois não sabe se o outro está entregue ou se está parcialmente. Uma eterna desconfiança que de a qualquer momento o parceiro pode pegar outro bonde.
Hoje me parece que se pode entregar o corpo, emprestar a boca, ter sensações maravilhosas, mas não pode entregar a alma. A desconfiança do dia a dia invade nossos namoros e casamentos. A vontade de satisfazer o desejo ou uma necessidade biológica está acima de preencher ou ser preenchido. Estamos virando eternos adolescentes? Estaríamos todos tendo comportamento de Tarzan? Sim, largamos um cipó se outro já estiver na mão, e se o cipó não for bom, não tem importância, o importante é sempre ter um cipó a mão, mesmo que seja um sisal puído.

Ana Teresa Simão disse...

Adorei, sua sensibilidade se parece com o da Marta Medeiros, vc esta cada dia melhor

K* disse...

Dessa vez, nossa conversa rendeu frutos! Deu pra perceber pelo conteúdo do texto. Agora só falta o meu ficar pronto! hahaha
bjss

cicero disse...

Uau, pra ser sincero ainda não tinha lido seu blog, parei pra dar um votadinha rsrs
e realmente me surpreendi, você além de uma maravilhosa escritora, coloca suas ideias com umas simplicidade e objetividade incrivel, achei seu texto sensacional, você deve usar e abusar desse DOM que Deus te deu e mostrar sua opnião que certamente é muito válida e mecher o nossos corações confusos e perdidos nessa Babilonia de Aço em que vivemos, onde o AMOR esta se tonarnando algo subjetivo, realmente qual seria a definição de AMOR?!?!
bjão...

Dentinho disse...

Sensacional!!! Sem palavras para expressar o quão estou feliz por saber que tenho uma amiga tão inteligente!! Parabéns, Carol!!