quarta-feira, 4 de março de 2009

E quem é normal?

04.03.09 - por Carol Medeiros

Essa vida é muito doida!
Dizem que a gente tem que estudar e trabalhar pra ser alguém na vida. Certos de que é isso que traz felicidade (ou, pelo menos, uma boa grana), passa-se a viver em função do trabalho, sentados o dia todo em cadeiras desconfortáveis, usando o computador, embora a coluna grite bem alto: pare, mexa-se, por favor! Deixamos a saúde um pouco de lado, porque não sobra tempo pra malhar. Ou sobra, se dormir menos. Mas dormir não era imprescindível pra manter a memória boa?

Quem dorme mal, fica mal no dia seguinte. O trabalho não rende. Mas se não abrir mão de algumas horas a mais de sono, não dá tempo de malhar. E pra dormir cedo e acordar pra ir à academia, tem que abstrair vida social durante a semana. E nem estou falando de noitadas não, considere vida social um cineminha, cuja sessão começa às 9 da noite, porque com o trânsito em todas as partes da cidade, é inviável programar algo pra antes disso. E se começa às 9 da noite, termina depois das 11, e aí, lá se vai a academia do dia seguinte.

Se não for assim, deixamos de ter vida social. Aí, todo mundo fica chato e começa a escutar que a vida não é só trabalho, que tem que ter diversão também. Mas quem tira férias por um mês (o que é assegurado como direito, e não favor, embora muitas vezes pareça o contrário), é olhado como “sem noção”, aquele que tem coragem de largar um monte de trabalho pra ousar se divertir, descansar, seja lá o que for, que petulância!

Acho que a maioria das pessoas, pelo menos as que me cercam, passam a vida tentando equilibrar tudo isso: estudo, trabalho, família, amigos, atividade física e vida social. Fomos ensinados que só assim seremos felizes. A culpa não é nem dos pais, porque com eles não deve ter sido muito diferente, guardadas as devidas proporções.

Aí vem um livro tipo o “Comer, rezar, amar”, vende 4 milhões de exemplares e nos prova que a maioria das pessoas se identifica, de alguma forma, com a angústia da autora, que largou toda a sua vida atribulada para passar uma temporada buscando o prazer na Itália, resgatando sua espiritualidade na Ìndia e seu “eu” na Indonésia. Nada pessoal, eu adorei o livro, mas confesso que aguardei ansiosamente pelo final da história porque estava crente que descobriria não o que a autora fez durante o ano que viajou em busca de reencontrar a si mesma, mas sim o que ela fez para, após o término da viagem, inserir as novas descobertas na sua rotina de americana de cidade grande? Como ser quem ela descobriu que era após sua vida voltar ao “normal”?

Será que a vida dela voltou ao que chamamos de normal, com emprego, trânsito, corre-corre? Depois de tantas experiências profundas e engrandecedoras, ela conseguiu voltar a trabalhar em algo tradicional, receber um salário por isso e, se quisesse manter sua espiritualidade aguçada, acordar horas antes do habitual para ter tempo de meditar? Será que é possível manter-se equilibrada espiritualmente voltando ao dia-a-dia de trabalho como jornalista e vivendo numa cidade como Nova York?

Não acho que seja impossível manter esse equilíbrio, embora tampouco seja fácil. Mas para mim a maior dificuldade de alguém nessa situação deve ser resistir às cobranças do mundo externo, incluindo pais, amigos e a sociedade como um todo. Ao ser questionado sobre o que você faz da vida, experimente responder “nada, eu busco o prazer e me encontrar espiritualmente” para eu ver a cara da pessoa! E, no entanto, acho que é o que todos buscam, de um jeito ou de outro.

Não gosto de rotular ninguém e acho que as pessoas são diferentes, mas o fato de o livro ter se tornado um best-seller demonstra, ao meu ver, como as pessoas estão desesperadas para deixarem de ser o que todos querem que sejam e se tornar quem elas são, de fato.
Um executivo de 55 anos, rico, que larga a multinacional onde trabalhou durante toda a vida e passa a viver de plantação de verduras sem agrotóxicos parece, para muitos, doido. Mas esse “doido” é perdoado pela maioria, afinal, já trabalhou a vida toda numa empresa tradicional, ganhou dinheiro, cumpriu seu papel perante a sociedade.

Daí eu penso: coitado desse cara, duvido muito que ele tenha sido feliz durante essa carreira e só anos depois é que tenha descoberto que seria mais feliz vivendo no campo. Duvido! Aposto que ele passou anos sendo não exatamente infeliz, mas no mínimo sem saber se era aquilo que ele queria pra vida dele. No entanto, também não buscou descobrir o que poderia lhe fazer feliz senão a multinacional, pois era um executivo bem pago e não devia ter do que reclamar. Como todo mundo adora o bordão “nunca é tarde para...”, lá foi ele, aos 55, vivenciar o que lhe dava prazer.

O que me impressiona mesmo é como as pessoas têm um problema com ser feliz. Todo mundo diz que quer ser, mas o boicote rola solto (e quando não parte de si, vem dos outros, pode esperar – ainda que seja inconscientemente). Quando se é jovem, aquele que ainda não passou pelos empregos mais frustrantes que um ser pode ter, que não construiu uma carreira supostamente bem-sucedida que não lhe trouxe um pingo de alegria durante anos, esse cara, em vez de ter direito à felicidade, é visto com estranheza. Nesse caso ele é jovem demais, não deve saber o que quer da vida, e nem pode saber o que não quer, afinal, nada viveu. É preciso que viva uma vida de frustrações para, então, conseguir sua carta de alforria e ter direito de buscar o que lhe faz mais feliz. Eta, mundo doido!

A sensação que às vezes eu tenho é que o fato de não saber exatamente o que se quer da vida (e quem sabe exatamente o que quer da vida algum dia?) implica em não ter credibilidade para determinar o que não se quer. Vai dizer a alguém que você não quer um emprego onde ganharia bem mas que não te dá tempo pra respirar, ou pedir pra sair mais cedo do trabalho porque sua aula de yôga é, sim, tão importante quanto sua função na empresa, vá você renunciar a uma oportunidade profissional que parece ótima para todos, exceto pra você, e automaticamente, tcha-ram: você se tornará aquele que não quer nada com a hora do Brasil.

E se o seu relógio simplesmente funciona de maneira diferente?

9 comentários:

Priscilla disse...

Eu acho que qualquer jovem mortal se enquadra nesse texto!
E ainda que nossos relógios sejam diferentes....chega uma hora que a cobtrança é grande para ajustarmos os ponteiros!
Um show de texto!
Parabéns
Beijos Pri Palladino

Thaisa disse...

Menina...

Nao fique tanto tempo assim sem nos presentear com seus textos, por favor, tava fazendo falta!

Parabens mais uma vez! Vc sempre com as palavras certas para recomecar uma manha de trabalho e repensar o que de fato se quer para essa vida! Perfeito!

Beijos

Thaisinha

Aline Sales disse...

Querida! Tempão que a gente não se fala, mas eu de vez em quando dou uma passadinha por aqui pra matar saudades, e aproveitar os seus textos, é claro.
Por uma dessas coincidências deliciosas, eu tenho pensado muito no assunto que vc abordou aqui. Já passei por toda esta vida de frustrações que vc citou e tive que ter coragem pra largar tudo e vir pra sampa atrás do meu amor que, por sua vez, "não podia deixar de aceitar o super-convite de trabalho que recebeu". Acho que vc acompanhou um pouco do meu drama lá na W, né?
Eu, que trabalhava desde os 16 anos, pela primeira vez ia "dar um tempo" e simplesmente... engravidar. E choveu cobrança do tipo: "nossa, não acredito! Vc não vai aproveitar pra trabalhar em São Paulo?!"
Principalmente depois que surgiu proposta pra voltar ao mercado e eu, louca, resolvi ser honesta, vejam só, e falei a verdade: "olha, na verdade estou tentando engravidar e acho que não seria legal com vc aceitar o emprego e apareceu barriguda no mês seguinte".
Enfim, demorou um pouco, engravidei, minha filha nasceu e a gravidez e o nascimento da Isabela me fizeram pensar em voltar pro Rio, pra morar e trabalhar. Mas, para isto, é claro que meu marido teria que abrir mão do salário que ganha aqui pra ganhar menos.
E aí, lá vem cobrança de novo...
Mesmo que a gente saiba exatamente o que quer, as circunstâncias e as pessoas estão sempre nos forçando a achar um "meio-termo". E o "meio- termo" neste caso não significa equilibrio e sim insatisfação. :o(

Bjo grande e parabéns pelos textos!
Aline

Gabriel Melsert disse...

É Cârol, realmente concordo com você em quase tudo!Porém, ai vai uma frase que se adéqua a quase tudo:

''Ninguém falou que ia ser fácil!'' hahahaha!!!!
Ótimo texto!
Bisous!!!!!!!

Bruno Amaral de Oliveira Rodrigues disse...

É, eu tenho pensado nisso nos ultimos anos... Talvez, por isso, tenha atraído coisas muito boas que farão minha vida mudar a partir do ano que vem...

Chover no molhado, você escreve "bom"!!!! rs!

Bj linda!!

Kelly disse...

eu ainda não vivi tempo suficiente pra dizer q quero largar tudo e ir pra um lugar bem tranquilo... embora esse pensamento rodeie minha mente de vez em quando. acho q a gente perde muito tempo buscando coisas que só fazem de nós eternos insatisfeitos. sabe, quanto mais se tem mais se quer??? acho q a gente se encontra qdo para de correr atrás do que TER, e procura o que SER... falta isso. Graças a Deus, tenho redirecionado minhas buscas e, embora não tenha ido à Itália, Índia ou Indonésia, me descobrir tem sido um desafio diário, mas quer saber... quanto mais abro mão do ter, do corre-corre, do trabalho que só é enfado MAIS EU SOU FELIZ!!!!!!!!!!!
Lindo seu texto!!!

Denise Pieri disse...

Carol,
Adorei o seu texto e estou lendo o "comer, rezar e amar", o que demonstra que, como muitos, também estou buscando me encontrar e saber o que, de fato, me faz feliz.
Me identifico com muitas das suas palavras e vou adotar, daqui para frente, quando me perguntarem o que fazendo da vida, o "estou procurando me encontrar espiritualmente". ADOREI!
Certa vez, já há algum tempo atrás, o seu irmão me disse que estava falando para uns amigos de uma menina com quem ele estava saíndo - todos paulistas, imagina a cena - que era desempregado. Ele disse que as pessoas o olhavam como um ET. Muito bom!!!!!!
Não tenho dúvidas de que é dificil encontrar um emprego que nos realize profissionalmente e espiritualmente (acho que é por isso que estou sempre pedindo demissão dos meus - risos), mas, por outro lado, vivemos num mundo capitalista e temos que ganhar nosso dinheiro para podermos nele continuar, ter acesso aos bens de consumo de que tanto gostamos e fazer os programas que nos agradam. Eta mundo louco mesmo!
Beijos. Denise Pieri.

Cris disse...

Carol Queridona
Poxa logico que eu tinha que fazer uma homenagem a vc, ne. Alias me inspirei em vc e vc sabe disso. Tenho que deixar de ser boba e acreditar mais em meu potencial. Obrigada pela forca sempre e conte comigo pro que der e vier. bjaooo

Sua fa
Cris

Flavinha disse...

Carol, este texto está FANTÁSTICO!! Me identifiquei muito, muito mesmo. Ainda mais na parte de malhar hehehhehe. Ou durmo, ou saio, ou malho, ou tento trabalhar menos etc etc etc. Quantos dilemas!
Parabéns, amiga.
Bjkas Flavinha