quinta-feira, 4 de setembro de 2008

No jogo da vida, quem dá as cartas?

04.09.08 - por Carol Medeiros

Em meu último texto, escrevi sobre saudades. Por uma ironia do destino, dessas que ninguém explica, logo depois recebi uma notícia que me deixou estarrecida e que, infelizmente, está longe de ser um fato isolado no meu círculo de amigos. Um ex-colega de escola, não muito próximo, mas a quem eu queria bem, faleceu. Além da tristeza pela perda, o que mais me choca nessas horas é ver esfregado na minha cara, sem a menor cerimônia e da pior forma possível, o quanto a vida é banal. De fato, pra morrer, basta estar vivo.

Na semana passada, encontrei com um amigo em uma boate. No dia seguinte, soube que ele havia batido de carro, e que quando saiu do veículo pra posicionar o triângulo de sinalização, foi atropelado. Sofreu algumas fraturas graves, ainda está internado, mas a morte está tão escancarada na nossa frente que o fato de ele estar vivo faz com que eu respire aliviada e diga que “não aconteceu nada com ele”.

Eis que uma semana após o acidente, este outro conhecido, dos tempos de colégio, voltava do aniversário de um amigo nosso. Não sei exatamente como, até porque não tenho a menor inclinação para detalhes sórdidos e mórbidos, mas o fato (lamentável) é que, após bater de carro, ele teria parado em um posto de gasolina e também acabou sendo atropelado. O motorista fugiu, e infelizmente esse camarada não teve a mesma sorte do meu outro amigo, e não está mais entre nós.

Ainda em choque, comentei com uma amiga sobre como pessoas boas têm partido de forma boçal. Essa amiga trabalhou com a sócia da grife Bisi, que faleceu há poucos dias, logo após o parto de sua filha. A morte dela tem sido amplamente noticiada pelos jornais, mas a dor de quem a amava certamente jamais será fielmente retratada. Reproduzo aqui as palavras da minha amiga: “Carol, aquela mulher... não podia ter acontecido aquilo... ela estava louca pra ter aquela menina. Uma semana antes de dar à luz, ela comentou que não precisava de mais nada na vida, que estava completa”. Esse mundo é louco mesmo.

Em seguida, minha querida amiga disse que apesar de não ver a morte como uma coisa ruim, fica triste porque “ela tira pessoas boas de um mundo com tanta gente ruim”. Ela tem razão, mas como eu não tenho opinião formada sobre a morte (e acho que nunca vou ter), hoje não sei o que pensar nem o que escrever. Pouco me importa encadear palavras. A verdade é que me sinto um pouco perdida.

Já perdi muitos amigos em acidentes de carro e sempre via a história se repetir. Em busca de algo que lhes confortasse, familiares e amigos tentavam justificar a perda com “desculpas” para a fatalidade. Claro que sempre havia quem, até numa hora dessas, soltasse o veneno. De um jeito ou de outro, era um festival de “os jovens de hoje são imprudentes”, “lógico que o motorista estava bêbado”, “culpados são os pais que deram um carro potente” etc, todas tentativas frustradas de obter explicação para o inexplicável.

E agora, de quem é a culpa? Já pararam pra pensar na bizarrice da situação? Bateu com o carro, mas podia ter sido pior. Sempre pode, não é mesmo? Sai do carro e é atropelado. Como sempre “podia ter sido pior”, você morre! Complexo e simples assim. E o indivíduo (é humano? Será mesmo?) ainda foge. Não presta socorro nem responde criminalmente, e sou capaz de apostar que ainda dorme à noite. Que mundo é esse?

Perdi as contas de quantas vezes reprimi algum amigo que não tinha condições de dirigir e o fez, “bancando a chata”. Normalmente, nesses casos, não vale o “quem avisa, amigo é”. Todo mundo se acha super-herói, sou testemunha de que às vezes achamos mesmo que “com a gente não acontece”. Lego engano.

Aconteceu com os rapazes, todos da mesma turma, que estudavam no meu colégio e morreram num mesmo acidente, quando eu tinha uns 16 anos. Aconteceu com a amiga que dirigia o carro onde estava a minha melhor amiga, que por pouco não se foi junto com ela, e só eu sei como sofri assistindo, de perto, à sua recuperação física e emocional. Aconteceu com amigos do meu irmão, com amigos dos meus amigos, com amigos de quem agora lê esse texto. É quase impossível achar alguém com 20 e poucos anos que não tenha perdido um amigo.

Nessas horas, vemos que pode acontecer com qualquer um. Até – admire-se! – comigo e com você. O problema é que até então, embora muitos não parecessem se preocupar de verdade com isso, parecia que “bastava” ter responsabilidade, não dirigir depois de beber, ser prudente no volante. Agora está fora do nosso alcance, se é que em algum dia esteve sob nosso controle.

Recentemente, dois casos me chocaram. Em ambos, jovens médicos, coincidentemente recém-casados, e com indícios de um futuro brilhante, se descobriram portadores de doenças que podem lhes custar a vida. Sou leiga no assunto e não dizer o que cada um tem, mas posso afirmar que nos dois casos a vida se mostra fugaz e por um fio, que ninguém é capaz de enxergar com nitidez onde está para segurá-lo e impedir que seja cortado.

Situações assim sempre me fazem refletir absurdamente. Não vou dar uma de Poliana e dizer que devemos perdoar tudo e todos, não dando importância à perda do emprego, à traição do namorado ou à briga com os pais. Tudo bem que “sempre podia ser pior”, mas cada problema tem seu tamanho e ninguém tem o direito de minimizar o que te chateia. O grande problema – e não é raro - está em permitir que coisas ruins, porém não catastróficas, tomem proporções gigantescas em nossas vidas.

Então, a tristeza se acomoda na gente. Mesmo sem perceber, às vezes usamos os problemas como argumento pro marasmo em que nos permitimos ficar. É o velho papo, embora em outro contexto, de procurar justificativa pros acontecimentos da vida. Soa familiar?

Não serei hipócrita em dizer que amanhã vou relevar o que meus desafetos (inimigos creio que não tenho) me fizeram, porque não vou, não. E tenho o direito de não querer fazê-lo. Apesar disso, vou tentar não deixar que isso me consuma, que tome tempo dos meus pensamentos e energia da minha vida. Não sei o dia de amanhã, porque desconheço quem dá as cartas. Só sei que tem alguma coisa muito esquisita acontecendo nesse mundo. Vida louca, vida, vida breve. Enquanto essa sensação de vazio e de impotência não passa, vou ser feliz e já volto.

11 comentários:

Dona disse...

Oiee bacana seu blog :)

O meu é novinho mal sei postar nele
mas tô aprendendo haha

beeeijo!

Elyzia Lacerda disse...

Carol,
eu nunca tinha entrado em seu blog
entrei e agora apaixonei..
vc escreve coisas lindas..parabens pelo dom!!
todos os dias agora vou ver c tem novidades..
grand bju e otimo fds!

Remo Saraiva disse...

O mundo tá doido mesmo, Carolzinha!
Louco!!

Como sempre, você escreve muito bem!!

Beijos,
Rômulo.

Henrique Bastos disse...

Olá!

Esse texto me lembra um pouco aquelas nossa filosofadas nos churrascos dos Gongolos! ;-)

Eu não consigo ter uma única posição sobre este assunto. Tenho a impressão de que o mundo sempre foi louco assim. Mas acho que nunca, nós humanos, ocidentais ao menos, fomos tão passivos! Consumimos tudo, opinião, estilo, valores, e principalmente comportamento. Muitas acontecimentos estúpidos que nos rodeiam poderiam ser evitados com um mínimo de reflexão.

Tá certo que "shit happens"! Fatalidades, como vc mesma disse. Mas enquanto não despertarmos para o grande trabalho de descobrirmos a real direção dos nossos desejos individuais, continuaremos agindo como mortos-vivos, vivendo os sonhos e crenças de alguém, presos na caverna de platão, enquanto o nosso maior recurso se esvai pelas mãos: tempo!

Beijocas pra vc!

Fátima Zovico disse...

Quem dá as cartas?
Nós damos as cartas. Somos os únicos responsáveis pelo nosso viver e por nossa felicidade e o mais fica por conta da vida, vida louca, vida...
Carol,
Estou adorando seus textos que são transparentes como você.
Sucesso!...
Beijos da sua Fafá.

Luiz de Melo disse...

É CArol.
Mais uma vez parabéns pelos textos, maravilhosos como sempre.
A vida é assim né: "Shit happens" e na maioria das vezes não temos como saber o que poderia ser evitado pra que isso ou aquilo não acontecesse. Também não sei quem dá as cartas, mas algumas vezes o jogo vem tão ruim que dá vontade de trocar a mão.
Beijosss

Leandro disse...

Carol,

Além do belo desabafo creio que uns comentários a mais não farão mal.

Antigamente, como minha avó explicita, a morte era algo inteiro e que era considerada uma coisa só. Porque digo isso? Hoje em dia a morte foi diluída e dividida. Efisema pulmonar, câncer de pele, parada múltipla dos órgãos etc.. Ou seja a morte perdeu seu lugar para cada doença que é tomada como a causa mesma muito mais do que a consequência.

Essa necessidade de explicação... poderíamos divagar dias e dias a fio e nunca encontraríamos uma explicação para essa necessidade de desmistificar a morte, que hoje é mito, um tipo de tabu às avessas. Sempre que alguém morre a morte é trágica, mas no cinema, na televisão, nos quadrinhos, dentre outros meios, a morte é banal, acontece a toda hora e muitas vezes é espetacularizada, basta ver filmes como Bad Boys II e O Procurado, que está em cartaz nos cinemas. Nesses filmes balas entrando na cabeça das pessoas são mostradas em close, o sangue espirrando e o buraco da bala são os astros da cena. E logo após a sessão amigo meu ficou indagando porque da classificação 18 anos para o filme, que para ele já é algo natural.

Mas a morte de tão natural merece ser esquecida. Como disse Bastos no seu comentário, escapamos da morte escapando da vida. Se viver é morrer a única maneira da morte perder em significado ou importância é parar de viver, ou viver de maneira mais frívola possível. Daí o sentimento de falta de coerência. Na nossa sociedade consumista tudo é descartável, mas logo substituído. A morte per si não dá chance à renovação. É o mais definitivo "perdeu playboy" do universo.

A falta de sentido e coerência dessas mortes, que levam não só gente do bem - basta ver a quantidade de traficantes e assaltantes mortos - pode ser entendida claramente se você considerar que as pessoas não vivem uma vida plena e nem significativa. Quando cada um possui o monopólio de suas opiniões e de seus valores, se preocupa apenas com sua própria felicidade, sempre em construção, sempre faltante, o significado da vida termina. O fim da morte é o fim da vida significativa.

Como pergunta Victor Frankl em seu maravilhoso processo de logoterapia aos seus clientes assim que adentram a primeira sessão: O que você, e somente você, pode fazer? Ou seja, ele recoloca o ser humano em seu lugar, no seu espaço e na sua condição. Em outra citação diz "quem tem um porquê viver, suporta qualquer como".

O que vemos hoje são pessoas que vivem em busca de algo, mas nunca sabem o que querem ou o que são. Ser hoje em dia é meramente uma questão de ir à loja mais próxima de comprar o kit. Hoje quero ser rasta... basta uns cordões de coco, um boné jamaicano, roupas largas e a partir de então aquele é o "novo estilo" da pessoa.

Do momento em que as pessoas pararem de querer ser e partirem pro ser realmente e propriamente dito essas questões cessarão.

A morte só tem sentido se a vida tiver. Quem não vê sentido na morte, é porque tampouco vê na vida. Daí todo o problema...

Bruno Amaral de Oliveira Rodrigues disse...

O triste nisso tudo é de como esses fatos transformam você.

Hoje, eu sou uma pessoa diferente do que era antes do acidente dos muleques em 1999.

Felizmente ou infelizmente...

Condomínio do Gatão disse...

Carolzita, eu não conheçia essa menina chamada Bruna q faleceu no parto de sua filha, mas pelo q soube e li, ela parecia ser uma pessoa mt querida por todos. E a pergunta q não quer calar: Pq pessoas boas como ela morrem e pessoas mas continuam vivas fazendo maldades aos outros? Infelizmente vivemos em um mundo assim e não sabemos de nd, um dia estamos de um jeito e qnd menos esperamos, td muda em um piscar de olhos. E isso já aconteceu comigo, pareceu q o meu mundo desmoronou, mas graças a Deus eu dei a volta por cima. E hj sei q qnd a gente menos espera td muda, mas a vida é assim mesmo, está sempre nos surpreendendo :)

Bjs e uma ótima semana pra vc !!!
Bruna Carvalho.

PS - Mais uma vez parabéns pelo texto, como sempre, mt bom !!!!

lucinane disse...

Seu blog tem mesmo algo de especial.
vou ler sempre...
bjkas

Carol Zapinha disse...

Ultimamente, com tudo que vem acontecido na minha vida e também devido a minha mania de escrever em qualquer espaço do caderno durante a aula, pensamentos ou simples fatos do meu cotidiano, tenho pensado seriamente em fazer um blog (Pra valer, pq já fiz vários sem sucesso).
Daí, aqui estou eu, lendo o seu blog quando me reparo com esse post. Tive que vim comentar!
Eu tenho 17 anos, e ano passado perdi um amigo em acidente de carro. Sábado agora, visitando o orkut da mãe dele eu vi uma comunidade de mães que perderam seus filhos. Eu sei que o assunto é triste, mas eu precisava entender essa dor...
Lógico que é impossível entender, mas tirei muitas lições de vida dali. E entre cancer, e outras doenças, a maior causa de mortes era de acidente de carro. Desde de jovens que sofreram com a negligencia de amigos, ou com sua própria, até crianças que se foram junto com pais, irmãos, por algum bebâdo.
Virou assunto banal, mas ainda deveria chocar.
Bem, desculpe pelo comentário enoorme e pelo assunto delicado... Mas é a vida, não?
Tô adorando seu blog, muito sucesso pra vc!
Beijos