terça-feira, 16 de setembro de 2008

Miss Perfeitinha

16.09.08 - por Carol Medeiros

Tinha acabado de desligar o telefone. Falava com ele, o ser a quem tanto amou e a quem evitava desde o rompimento. A pessoa a quem ainda temia amar. Desde a separação ela tentava não encontrá-lo, não atendia seus telefonemas, mas no fundo, torcia pra que ele não sumisse assim, tão repentinamente. Sempre soube que ter notícias dele era mexer em ferida não-cicatrizada, mas o tempo, ela estava certa disso, ajudaria a curar.

O tempo passou, não muito, mas o suficiente pra que ela percebesse que ele não estava colaborando, não dessa vez. A dor, que deveria diminuir a cada dia, de acordo com a lógica dos pés na bunda, permanecia a mesma do dia do rompimento. Por vezes, chegava a ter a sensação de que era toda tomada por aquele sentimento sem nome, de tal forma que chegou a se questionar se um dia sorriria novamente.
Nem ela sabia o que lhe causava tamanha dor. O relacionamento havia sido intenso, o rompimento foi brusco, ficaram algumas mágoas. Mas nunca tivera dificuldade para se desapegar do passado, para superar um término. Retomar sua rotina sem rotina e conviver com lugares por onde andaram juntos, destinos pra onde planejaram viajar, filmes que pensaram em assistir, tudo isso agora sozinha, não era algo que a amedrontasse. Ela sabia que podia sobreviver. Definitivamente, não era a parte mais difícil.
O sexo não era lá essas maravilhas. O beijo, que dizem que é o que faz a gente se apaixonar, não encaixava assim tão perfeitamente. O papo, esse sim, era irresistivelmente sedutor. Que a desculpassem os burros, mas inteligência lhe era fundamental.
Do que sentia falta, então? Nem ela sabia dizer. Não dava nem pra cogitar ser falta da convivência diária, pôr a culpa no hábito de estar juntos, de contar as novidades. Nunca chegaram a ter isso, porque até pra brigar decentemente é preciso viver um relacionamento por inteiro, namorar no sentido pleno da palavra, se entregar.
Ela se manteve distante para não mexer na ferida, mas percebendo que a ferida não cicatrizava, talvez estivesse na hora de tentar outro caminho, pensou. E pensando sem pensar muito, pegou o telefone. E discou o número dele sem pestanejar nem recorrer a nada que não sua memória. Tinha certeza de que havia tomado a decisão certa, ao menos a certa para aquele momento.
Ao fim da ligação, sentiu-se aliviada. Uma hora e 29 minutos foram mais significativos para começar a entender o que se passava com ela do que todo aquele tempo de sofrimento, ou talvez ambos se somassem - concluiu sem se importar muito com explicações desta vez.
Sem saber o porquê nem do que continua sentindo falta, pensou que talvez pudesse ter mais saudades do que não viveu do que do que tinha vivido com ele até então. Ainda mais não tendo sido opção sua, logo ela, linda, inteligente, cansada de ouvir frases como “você pode ter o homem que quiser”. Não, ela não podia!, concluiu no dia em que ele sinalizou que não queria mais. E, por algum motivo, deixar de ser a perfeitinha, que tem ou pode ter tudo o que deseja, parecia lhe afetar mais do que o fato em si de não ter o homem que queria.
Talvez já nem o quisesse tanto, ela hesitou em acreditar. E percebeu que, em vez de desejar que ele a amasse loucamente e que vivessem felizes para sempre, lhe agradava mais a idéia de ele implorando por seu amor, e ela exercitando seu ar de desprezo. Mas isso a faria sentir-se poderosa novamente?
Aí, lembrou-se de que todas as vezes em, contra tudo e contra todos, tomou decisões em sua vida, confiando apenas na sua percepção do que valia ou não a pena. Não foram tantas vezes assim, mas o suficiente para lembrar a ela da força que tinha, de seu poder de decisão – se não em todas as situações, pelo menos em relação ao que fazer de sua vida.
E foi assim, depois de confrontar seu maior medo naquele momento e pegar o telefone, que ela se deu conta de que não precisava que ninguém validasse seu poder de decisão. Não precisava que o outro a quisesse, e ela não mais a ele, pra se sentir poderosa. Ela era, e pronto. E assim ela se libertou. Não dele nem do relacionamento que acabou, mas da idéia de ter que ser perfeita.
Um dia, um paquera disse a ela: “você é bonita, inteligente, marombeira e ainda gosta de futebol. Parece ser a mulher ideal!”. Horrorizada, ela respondeu: Deus me livre!

9 comentários:

Amanda Mussi disse...

Uau, que delícia. Faz mais texto assim!

Daniel disse...

Nasce uma romancista!?!
Ótimo, Carol!!!
Kisses
Mr. Daniel

Remo Saraiva disse...

Gostei muito mesmo, Carol!

No meio do texto tem pelo menos duas passagens/sacadas antológicas! Coisa de almanaque mesmo.

O último parágrafo acho completamente dispensável, uma tentativa de fechar com riso que não é necessária. O texto já estava fechado antes, bem redondinho.

Beijos carinhosos,
REMO.

Gisele disse...

Como já comentado, nasce uma romancista.. esse blog tem q virar um livro, Carol!
Sensacional, amiga!!!
beijoss

Camila Crispim disse...

Achei esse seu melhor texto!!!!

Nanci disse...

Pode parecer piegas, mas fiquei emociada com esse texto.
ADOREI!!!!
Muito bom!!!!
Parabééééns e sucesso,Carol!!!!!

Beijão!

Amaral disse...

Clap clap clap clap clap clap!!!

Taíssa disse...

Adorei Carol!!!
Também percebo nitidamente o conflito das pessoas com esse estigma de "perfeitinha"!
Saudades de vc Querida!
Bjs Taíssa

Priscilla disse...

Aplausos de pé!