sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pais e filhos


Dia desses estava assistindo à reprise da novela Por Amor, do Manoel Carlos. Vocês se lembram? O mote central é o drama de Helena, personagem de Regina Duarte, e sua filha Eduarda (Gabriela Duarte) que, recém-casada, perde o bebê que esperava. Meses depois, engravida novamente. Helena, vivendo um novo relacionamento, acaba engravidando também, e as duas vão juntas para a maternidade para ter seus bebês. Eduarda perde novamente o bebê, e Helena, para que a filha não sofra, decide lhe dar seu filho, que nasce sadio, fazendo com que todos pensem que a criança de Helena é que não sobreviveu.

Embora esta seja uma história sobre mãe e filha, como essa é a semana do Dia dos Pais, fiquei pensando sobre essa relação entre pais e filhos de um modo geral; tão intensa, tão especial e, por vezes, tão problemática. Mesmo sabendo que causaria muito sofrimento ao seu marido, que estava louco pra ser pai, Helena lhe tirou esta felicidade ao entregar seu filho à Eduarda, para que a jovem não passasse novamente pela dor de não conseguir ser mãe. A justificativa era o amor de mãe falar mais alto, Helena querendo poupar Eduarda de mais uma frustração.

Como em reprise de novela tudo acontece muito rápido, capítulos depois o bebê já estava em casa, com a vida de todos voltando ao normal. E aí, Helena aparece como a avó que, sabendo-se mãe da criança, quer se meter integralmente na educação que Eduarda e o marido dão ao bebê. Achando que tomou a decisão correta ao entregar seu filho, Helena provavelmente vai criar um problema maior para Eduarda do que a sensação que ela poderia ter tido de frustração por não ser mãe. Interferindo na educação da criança, vai acabar se metendo também na relação de Eduarda com o marido. Há uma cena em que Helena liga para a casa de Eduarda e Marcelo, a babá atende e avisa que o casal saiu. Helena se revolta, julgando absurdo que os pais tenham deixado a criança sozinha, e vai tirar satisfações com Eduarda, achando ser um direito seu, pois ela fez muito pela filha!

Achando que estava fazendo um bem, Helena vai complicar muito as coisas, para a filha e para o “neto”. Nem entro no mérito do crime que ela cometeu, basta pensar no quanto sua atitude supostamente “generosa” pode acabar se revelando extremamente egoísta. Mesmo sem querer, é claro que de alguma forma Helena vai cobrar o agradecimento da filha e da própria criança, sendo que nenhuma das duas pediu que ela tomasse tal atitude, e sequer sabem da verdade. A babá que Eduarda contratou é uma indicação de um desafeto de Helena, e isso bastou para que ela se sentisse traída pela filha, mostrando o que vem pela frente.

Dia desses, ouvi em algum lugar que os pais nunca devem cobrar dos filhos o que fizeram por eles. Nem seria justo! Como um filho poderia compensar todo o amor, todo o cuidado que recebe dos pais?

Eu ainda não tenho filhos, mas tenho a Belinha, que não exige que eu troque fraldas nem que a ensine a falar, mas me exige um espírito de renúncia muito grande também. Deixo tranquilamente de viajar se não tiver com quem deixá-la, o que considero muito natural, já que eu é que optei por tê-la na minha vida. E o amor que ela me dá é a única retribuição de que preciso.

Toda a renúncia que ser pai e mãe requer, noites mal dormidas, o apoio, o carinho, o sustento... nenhum filho neste mundo, por melhor que seja, pode retribuir o que os pais fazem por ele, por mais que reconheça e seja agradecido. Porque filho só pode ser isso mesmo: um filho! Não pode estar fadado a ser o companheiro dos pais porque estes lhe deram a vida. O que os pais dão aos filhos não pode ser retribuído à altura nunca. É uma conta matemática que não fecha, cujos resultados nunca batem. E esperar isso de um filho não é natural e nem amor de pai/mãe; é no mínimo injusto. Ame sem esperar nada em troca. Assim é o verdadeiro amor.

5 comentários:

Vane disse...

Perfeito!
Tem horas em que fico me perguntando se há algo que eu possa fazer para retribuir o que meus pais vêm fazendo por mim durante todos estes anos.
E logo me vem a resposta: Infelizmente não.
Sempre digo a eles que nem todo o dinheiro e esforço do mundo pagaria todas as renúncias, noites mal dormidas (ou não dormidas), horas de preocupação, etc e etc. É tanta coisa que nem vale a pena começar a enumerar.
Ama-se por amor mesmo. Nem o tempo pode acabar com um amor sem explicação.
Adoro os seus textos.
Boa semana.
Beijos no coração!

Marcelinha disse...

Suas palavras interpretam alguns sentimentos na minha situacao, mas ao contrario: eu como filha me sinto na obrigacao da retribuicao, a toa, isso eh da minha cabeca!
hahahaha
Seu blog eh demais!
Beijocas!

Amaral disse...

Eu desejo e muito retribuir tudo o que meus pais fizeram e fazem por mim! Só que eu precisaria que eles vivessem até os 250 anos mais ou menos. Talvez nos mudar para o Japão seja a solução, rsrs!!

Muitos bjs, Carol!!

Gisele disse...

Carolll,
q saudade eu estava tb do seu blog, tenho estudado muito e por isso nem na net tenho parado p ler alguma coisa assim.

Mas já falando d pais e filhos, é impressionante como não tem um texto seu q eu não goste.
Vc dizer que "Porque filho só pode ser isso mesmo: um filho!" é siplesmente o resumo de tudo.
Eu e minha mãe às vezes parecemos pensar muito diferente, isso acho q vc diz qd coloca que a relaçao mas nem por isso deixa de ser complexa, até mesmo pq somos pessoas, mas ao mesmo tempo ressalta que a relação é deliciosa, e é verdade, é única.
Ao mesmo tempo penso q temos muito mais dos nossos pais do q imaginamos... tanto do pai quanto da mãe.

Então mais uma vez passo p dar um oi e rever q o blog está maravilhoso.. e parabéns tb por todos os textos e selos!!!
beijaooo

Celina disse...

Carol,
seu texto é perfeito.
beijos