publicado em www.sacoleirachic.com.br em 18.06.08
Por Carol Medeiros
Dia desses assisti a “Sex and the City – o filme”. Antes que os homens que lêem a coluna percam o interesse, aviso que o tema é de grande utilidade para qualquer pessoa, do sexo feminino ou masculino, que já tenha tido, tenha ou pretenda ter um relacionamento com alguém. Sendo ou não fã da série, para quem assistiu ao filme ou pensa que “é coisa de mulherzinha”, recomendo atenção. Afinal, se até a protagonista Carrie Bradshaw pode falar de relacionamentos, eu também posso.
Obviamente fui ao cinema ansiosa para matar as saudades da série que acompanhei por longas seis temporadas – e que acompanho até hoje, diga-se de passagem, vendo e revendo DVDs com todos os capítulos. “Sex and the City” mostra a rotina de quatro mulheres bonitas e bem-sucedidas que moram em Nova Iorque e vivem em busca do amor. Ou seria em busca de sexo? Ou de ambos?
É difícil definir o conceito de uma das séries mais famosas dos últimos tempos, mas garanto que é imperdível por um motivo: apesar de as personagens serem retratadas com exagero, tenho certeza de que todas as mulheres se identificam com um pouco de cada uma delas. É bom esclarecer que não se tratam de mal-amadas desesperadas à procura de maridos (embora, admito, isso aconteça em alguns episódios), mas sim de mulheres com questionamentos pertinentes à realidade da maioria de nós, mesmo daquelas que não tem o armário repleto de sapatos Manolo Blahnik.
Carrie, a personagem principal, é uma escritora que, durante dez anos, vive às indas e vindas com Mr. Big, um charmoso quarentão. Ao longo das seis temporadas do seriado eles terminam e voltam dezenas de vezes, e ele chega a se casar com outra – ainda assim, não consegue ficar sem Carrie. No último episódio do seriado eles se entendem, e decidem morar juntos no filme que está em cartaz nos cinemas.
Até aí, tudo bem. Até que decidem, de um modo peculiar, se casar oficialmente. Carrie compra uma roupa discreta (o que foge à sua regra) e Big sugere uma cerimônia para poucos convidados, o que se torna impossível dada a popularidade da escritora-celebridade. Ocorre que Big, que está no terceiro casamento, acha tudo over, fica confuso e desiste de se casar com a protagonista (quem ainda não viu o filme, não me mate. Podem acreditar que o final não é o que mais importa, mas sim o questionamento que ele suscita).
Big não desiste do casamento porque não quer ficar com Carrie, mas sim porque se sente intimidado, se acovarda. E depois de muito sofrimento de ambos em algumas horas de filme, o casal se reencontra e, desta vez, sem champanhe, festa para 300 convidados e nem vestido de noiva de Vivienne Westwood, ficam juntos pra valer.
Quando o filme acabou, fiquei confusa. Eu imaginava que o casal-sensação terminaria junto, por razões óbvias. Mas depois de acompanhar, com o coração na mão, o sofrimento de Carrie ao longo de seis temporadas, sendo coroado com a desistência de Big na porta da igreja, fiquei pensando se o “happy end” fazia algum sentido. É compreensível a escritora continuar amando Big; a gente não manda no coração nem quando ele é destroçado. Mas vale a pena ficar com alguém tão complicado a ponto de qualquer fator externo o fazer pensar se quer mesmo estar com você?
Voltemos ao dilema da “dose certa”, tema da minha segunda coluna. O filme, os episódios da série e os da vida real, vividos por mim e por zilhões de amigas, evidenciam a dificuldade de, ao gostar de alguém, decidir entre dois caminhos que parecem opostos. Optar pelo caminho do amor, louco amor, aquele que faz o coração bater mais forte, dá frio na barriga, mas também traz complexidades que fazem sofrer, que nos impedem de pensar com a cabeça.
O segundo caminho parece mais tranqüilo e indica uma relação estável e saudável, onde cada um tem vida própria e não há espaço para sentimentos como ciúmes. Dada a ausência de qualquer coisa que fuja à serenidade da relação, não por acaso não há espaço também para um amor arrebatador. Não sei se acredito no “meio do caminho”. Também não sei se, no lugar da Carrie, conseguiria me esquecer de ter sofrido tanto por alguém simplesmente por amá-lo. E não menosprezo o amor, só tenho minhas dúvidas se isso não é amar muito ao outro, mas pouco a si.
O filme nos faz lembrar também que não existe verdade absoluta em relacionamentos. Carrie até queria se casar num vestido suntuoso, mas ficou feliz trajando um tailleur simples e casando-se em cartório. A sensação que dá é que já que não dá pra ter tudo, ela opta por estar com Big em vez de ter a mais bela cerimônia com a qual sonhou. O que vale mais a pena na história deles? Não sei, e provavelmente não é o que mais vale na minha ou na sua. Prioridades, meus caros. Tão complexo quanto na série e no filme. Só que na vida real, não é o diretor quem decide se o final é feliz.
Nota da autora: ainda bem que escrevi a última coluna “Pra não dizer que não falei do Dia dos Namorados” antes de assistir ao filme. Quem for ao cinema vai descobrir que Carrie Bradshaw também concorda que, em relacionamentos, cada casal precisa estabelecer, juntos, suas regrinhas.
email para esta coluna: mariacarolinamedeiros@gmail.com