03.11.08 - por Carol Medeiros
Assisti ao "Última parada: 174", de Bruno Barreto. Saí sem palavras. Um pouco pelo filme, porque nada daquilo é ficção - e em filmes que retratam a violência, mesmo naqueles que não são baseados em histórias reais, nada é muito inventado. Mas fiquei sem palavras mesmo pelo que aconteceu depois do filme.
Sei que sou mais sensível do que a média das pessoas. Mas para mim nada justifica pessoas terem capacidade de sair do cinema sorrindo, brincando. O filme é um soco no estômago! Sei que o incômodo passa logo para a maioria, sei que grande parte se sensibiliza mas não faz nada mesmo. Mas, peraí! Perceber que há quem ache normal tudo aquilo que assistiu na tela, sabendo que há muito mais do lado de fora do cinema, me choca quase tanto quanto a tragédia do ônibus 174.
Não estou dizendo que bandidos são totalmente vítimas da sociedade. Isso é discussão para o restante da vida. Quando eu ou alguém próximo somos vítimas da violência, também me revolto. Me indigno quando vejo “o pessoal dos Diretos Humanos” lutar pela vida de quem comete barbáries. Ok, concordo que tem gente má mesmo, que não têm realmente jeito. Mais porque nosso sistema penitenciário não dá brecha pra alguém se recuperar, do que pela maldade na essência. Mas quando alguém consegue sorrir imediatamente ao fim de um filme como “174”, passo a acreditar que o que irrecuperável mesmo é a nossa sociedade.
Cheguei em casa com vontade, necessidade de desabafar. As palavras me faltavam, até me deparar com um escrito de Yvonne Bezerra de Mello. A artista plástica atuou em defesa das vítimas da chacina da Candelária e, vejam só, recebe ameaças por seu comportamento através de e-mails, cartas, telefonemas raivosos. Nas ruas, escuta desaforos.
Atualmente, Yvonne cuida de 420 crianças no Projeto Uerê (http://www.projetouere.org.br/), no Complexo da Maré. Para ela, “a burguesia não gosta de pobre. Ela é fascista. Acha que criança de favela é bandida. Eu já estou acostumada. Sempre que acontece alguma tragédia na cidade, eu viro alvo dessas pessoas". No relato a seguir, mais do que descrever as perseguições que sofre, a artista plástica evidencia, através do seu desabafo, a crise ética (permanente) em que vive nosso país.
"Em 1993, quando aconteceu a chacina da Candelária, fiquei muito chocada com a reação inesperada de uma parte da cidade do Rio de Janeiro. Só a imprensa e as organizações ligadas aos direitos humanos se indignaram. Houve uma aprovação pública daquele ato indigno, cometido por um dos muitos grupos de extermínio existentes dentro da instituição da Policia Militar do Estado.
Naquela época, tomei posições e me comprometi a trabalhar arduamente para colocar os carrascos na cadeia e defender um melhor atendimento para um grande contingente de crianças perambulando pelas ruas da cidade. A minha atitude de defesa e de acusação da negligência dos governos estadual e, principalmente, do municipal nessa área me trouxe vários problemas.
Fiquei estigmatizada como protetora dos bandidinhos crianças, dos adolescentes marginais, inimiga da sociedade. Cuspiam-me na rua, jogavam ovos no meu carro, me xingavam aonde fosse, projetando em mim todo o ódio que produz a ignorância e a falta de educação cívica de um povo. Dei-me conta de que a sociedade afaga as crianças brancas, finge que tolera as negras, abomina a pobreza, a favela e pouco faz para mudar o Brasil oriundo da “Casa Grande e Senzala” que ainda lhe serve.
O tempo foi passando e eu continuei comprometida com a minha luta e meu ideal de um Brasil mais justo e mais igualitário, não só no poder de compra da população, mas também na capacidade intelectual, que é uma das mais díspares do mundo entre classes sociais. Fundei o Projeto Uerê debaixo de um viaduto da cidade e desenvolvi uma metodologia especializada em crianças e jovens com traumas constantes devido à violência e com problemas de aprendizado. Quando a metodologia começou a ser conhecida e reconhecida com resultados positivos expressivos, outra vez as cartas, os emails, os xingamentos. Como eu podia ousar em insistir na educação igualitária para miseráveis? Eu queria que o Brasil fosse a Suécia? Como eu podia pretender que uma criança de favela pudesse ter a mesma performance escolar de uma dos colégios da elite?
Outra vez o estigma de louca, visionária, traidora da classe. Até aí eu agüentava as críticas e ia levando a minha vida. Com a violência aumentando nessa última década a níveis insuportáveis, eu até compreendo a revolta pelo cerceamento de liberdade no ir e vir das pessoas e das famílias no seu dia-a-dia. O que eu não entendo é que a culpa dos níveis de violência na cidade sempre recaia sobre os pobres e nunca sobre uma elite que compactua, sim, com a corrupção, com a tolerância ao ilegal, com a impunidade e com um grande desrespeito às leis. O dinheiro pode tudo!
E eu, para muitos, sou uma das causas dessa violência. Quando acontece um assassinato na cidade cometido por um menor de idade, imediatamente o associam a mim. Assim aconteceu na morte do João Hélio e de muitos outros. As ameaças me chegam por todas as vias de comunicação. Todas me culpando porque sou eu que educo os marginais, que os faço pensar, ter lógica para que matem mais.
É incrível. Mas a realidade é que me culpam por esses assassinatos. Quando acontecem, eu mudo minha vida. Não saio de casa, evito vida social e me fecho num casulo com medo da incompreensão e sem saber como lidar com isso. Em maio desse ano as ameaças foram tantas que tive que pedir proteção da polícia.
Recentemente, cerca de dois meses atrás, quando a violência nas favelas se
intensificou, eu fui levar minha mãe de 93 anos para jantar num restaurante do Leblon. Na mesa ao lado havia uma família com avós, filhos e netos. Quando chegamos, a avó disse aos netos pequenos, de uns 8 ou 9 anos: “essa aí é aquela louca que protege bandidos”. Eu fiquei com vergonha por ela, por ensinar aos seus netos a serem brasileiros alienados dos problemas sociais do país.
Quando o Bruno Barreto me procurou para dar uma consultoria sobre o roteiro do filme “Última parada: 174”, que conta a história de um menino que vivia na minha época na Candelária e no qual a Ana Cotrim faz o meu papel, eu disse a ele: “Bruno, tenho que me preparar porque a minha vida vai ficar difícil de novo depois desse filme”. E não deu outra.
Faz uma semana que a violência das ameaças começou pela primeira vez a me preocupar, pelo teor assassino das mesmas. As pessoas ficaram mais odientas contra as classes populares, mais conservadoras e fascistas perante a falta de operacionalidade dos governos na área da segurança pública. Quando leio que cerca de 500 cidades brasileiras vão necessitar das forças armadas para garantir as eleições, sinto que as instituições democráticas desse país estão abaladas. E a culpa recai de novo sobre o povão oprimido pelo tráfico de drogas que só existe porque existe corrupção, pelas milícias das policias, pelo consumismo de drogas das classes mais abastadas e pela péssima representatividade política. E uma parte recai sobre mim, que faço o meu papel de cidadã e de brasileira consciente.
Se algo acontecer comigo seria lastimável, porque eu sou uma de muitos que ainda acredita que esse país pode ser mudado pelas idéias, e não pela força bruta". (Yvonne Bezerra de Mello)